Rússia condena fala racista do papa sobre crueldade na guerra

Em entrevista, Francisco sugeriu pior comportamento de muçulmanos e budistas na guerra

Folha de São Paulo

2022-11-29 17:20:50

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O papa Francisco envolveu-se em mais uma polêmica relacionada à Guerra da Ucrânia. Após dizer que o Ocidente talvez tivesse culpa pela invasão russa do vizinho, o pontífice fez um comentário claramente racista acerca do comportamento das tropas de Vladimir Putin no conflito.

Em entrevista à principal revista jesuíta dos EUA, America, disse que os soldados não cristãos a serviço da Rússia são mais cruéis em combate do que os aderentes da fé ortodoxa majoritária do país de Putin.

'De forma geral, os mais cruéis são talvez aqueles que são da Rússia, mas não da tradição russa, como tchetchenos, buriatos e assim por diante', afirmou o papa, que é jesuíta.

Dados levantados por ONGs de direitos humanos na Rússia apontam uma proporção maior de soldados vindos de partes do país com maiorias étnicas não russas em ação na Ucrânia. No caso da Tchetchênia, república do Cáucaso de maioria muçulmana, isso é inclusive um ponto de venda do governo local de Ramzan Kadirov, um dos mais agressivos aliados de Putin. Seu canal no Telegram é coalhado de imagens de ações de seus homens na Ucrânia, tendo tido um papel relevante na tomada de Mariupol, no sul.

Já a Buriácia, república siberiana do Extremo Oriente russo, é conhecida pela adesão ao budismo tibetano (cerca de 20% da população) e a crenças xamanistas dos mongóis que habitavam o local historicamente.

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'Isso já não é mais russofobia, é uma perversão em um nível que nem sei nomear', afirmou a porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Maria Zakharova, no Telegram. 'Nós somos uma só família, com buriátis, tchetchenos e outros representantes do nosso país multinacional e multiconfessional', afirmou.

Apesar de ser dominada pelo caráter eslavo e ortodoxo centrado em sua porção europeia, a Rússia é uma colcha de seus 95 entes federais. Do ponto de vista religioso, a ortodoxia russa responde por cerca de 40% da fé declarada no país, com 6,5% de muçulmanos e 6,5% de outros cristãos como principais minorias.

Ouvida por agências de notícias, mesmo uma ONG em prol dos direitos dos buriatos e contrária à guerra, chamada Free Buryatia, criticou Francisco. 'Fiquei extremamente desapontada ao ler essa declaração indesculpável e racista', afirmou Alexandra Garmajapova. Segundo a agência RIA Novosti, a representação da Rússia junto ao Vaticano expressou sua 'grande insatisfação' com a fala do pontífice.

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Nem sempre foi assim: ninguém na Rússia reclamou quando ele afirmou, em uma entrevista, que a invasão foi 'de certa forma provocada' pelo Ocidente. Antes, ele havia dito que a Otan, a aliança militar ocidental, estava 'latindo nos portões da Rússia', o que poderia disparar o conflito.

Ao mesmo tempo, ele é um grande crítico do conflito, o que já levou a alfinetadas por Moscou —o regime de Putin é muito próximo da liderança da Igreja Ortodoxa Russa, a principal denominação cristã oriental do mundo. Ao mesmo tempo, Francisco deu sinais de aproximação com o Patriarcado de Moscou.

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