Como protesto de estudantes fez China recuar em restrições contra Covid

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Folha de São Paulo

2022-05-20 19:30:36

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A Universidade de Pequim (PKU), uma das mais importantes da China, foi palco de um raro protesto depois de a instituição começar a erguer uma barreira entre alunos e professores para conter possíveis casos de Covid. O protesto aconteceu em Wanliu, um dormitório que fica fora do campus. Dado o recente surto de coronavírus, a diretoria da universidade havia iniciado a construção de uma barreira feita de chapas de metal que separaria os alunos dos docentes. O problema é que, embora estudantes dentro do complexo fossem proibidos de deixar o local, funcionários poderiam circular livremente.

Quando a notícia se espalhou, na noite de terça (17), centenas de estudantes se reuniram em protesto, gritando palavras de ordem, e manifestantes tentaram derrubar parte da barreira que já estava erguida. Para acalmar os ânimos, o vice-secretário do comitê do Partido Comunista na PKU, Chen Baojian, foi chamado para conversar com os alunos.

Esse foi o segundo protesto de grandes proporções registrado em centros de ensino superior na capital chinesa. No início do mês, a polícia foi acionada pela diretoria da Universidade de Estudos Internacionais de Pequim (BISU). Alunos iniciaram um protesto questionando a efetividade das medidas de combate ao coronavírus no campus. Eles acusaram parte dos funcionários de não usar máscaras. Em vídeos na internet, um policial é visto com um megafone ordenando que os manifestantes 'cooperem com o comitê escolar do partido e se dispersem imediatamente'. Ele também ameaça 'tomar medidas legais para limpar a área' se os estudantes não obedecerem às ordens. Mais tarde, o ato acabou dispersado, e a universidade postou um apelo aos estudantes em seu site, exortando que o 'corpo discente obedeça às políticas de Covid zero'. Por que importa: universidades chinesas são bolhas anti-Covid em uma cidade que já adota políticas bastante duras contra a circulação do vírus. Com aulas presenciais acontecendo normalmente, várias instituições foram colocadas em monitoramento restrito em Pequim desde a semana passada. Na maioria delas, os estudantes não podem deixar o campus desde o início de maio. Entregas de comida foram banidas, funcionários essenciais precisam dormir em instalações improvisadas dentro dos campi e barricadas foram erguidas em torno dos portões para impedir o acesso.

A alta comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Michelle Bachelet, tem viagem prevista à China na próxima semana para investigar denúncias de violações contra minorias étnicas e perseguições a ativistas políticos no país. Segundo a Bloomberg, Bachelet deve iniciar os trabalhos na próxima segunda (23), reunindo-se virtualmente com diplomatas estrangeiros servindo na China. Ela também deve, em algum momento, visitar Xinjiang, alvo de críticas internacionais em razão dos centros de detenção para a minoria uigur, embora a agenda não tenha sido divulgada para a imprensa. Será a primeira vez desde 2005 que a chefia do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos visita o país. A viagem vem sendo planejada há anos e foi adiada devido à pandemia e às duras negociações quanto ao nível de acesso que a equipe de Bachelet teria em Xinjiang.

A China quer expandir o número de membros do Brics, disse o ministro das Relações Exteriores do país, Wang Yi. É a primeira vez que Pequim defende abertamente a ideia. A fala aconteceu durante uma reunião na quinta (19) entre os chanceleres do bloco formado por Brasil, Rússia, Índia, África do Sul e pela própria China. Para Wang, o Brics precisa estar aberto à entrada de mais países em desenvolvimento. Ele afirmou que Pequim pretende 'explorar os critérios [de adesão], procedimentos para a expansão, de modo a formar gradualmente um consenso' entre os membros. O último país a se juntar ao grupo foi a África do Sul, em 2010. Mesmo assim, a ideia de expandir o bloco não é nova: recentemente, diplomatas aventaram a possibilidade de Argentina, México e Turquia se juntarem ao grupo. O Brasil tem resistido à ampliação, temendo perder protagonismo com a eventual adesão de novos membros.

Mais

O premiê chinês, Li Keqiang, afirmou nesta quinta (19) que a China vai apoiar empresas e plataformas digitais interessadas em abrir capital no país e no exterior. Segundo oficial mais importante na hierarquia do Partido Comunista, Li prometeu que o governo vai criar um 'ambiente regulatório e de negócios estável, transparente e justo para a economia digital e continuará abrindo o comércio transfronteiriço e recebendo capital estrangeiro'. Por que importa: o aceno às big techs pode representar o fim da caça às bruxas iniciada em 2021. No ano passado, várias empresas receberam multas bilionárias e foram forçadas a reverter listagens em bolsas de valores estrangeiras, além de passarem por escrutínio governamental quanto a forma e o local em que armazenavam dados de cidadãos chineses. A desaceleração econômica pode estar no cerne da decisão do PC Chinês para aliviar, ao menos por hora, a pressão regulatória nesse setor.

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